As mãos que cuidam também deixam marcas
Um recomeço no Babá Conectada neste Dia das Mães
Fiquei quase um ano sem escrever aqui.
Durante muitos meses, abri o blog, pensei em voltar, comecei frases na cabeça, mas nunca consegui terminar. A vida foi acontecendo rápido demais, o trabalho aumentou, os dias passaram correndo… e, no meio dessa correria, eu silenciei.
Mas existem silêncios que não nascem da falta de vontade.
Eles nascem da dor.
Hoje, neste novo Dia das Mães, senti que era hora de voltar.
E talvez esse retorno precise começar exatamente de onde tudo parou.
O último Dia das Mães que mudou minha vida
No ano passado, trabalhei no sábado do Dia das Mães. Dormi na casa de uma cliente cuidando de uma criança enquanto ela cumpria um compromisso.
Foi um final de semana comum na vida de quem trabalha cuidando: cansativo, corrido, mas cheio de afeto.
No domingo, perto do almoço, cheguei em casa. Pouco depois, recebi uma mensagem de uma mãe muito querida pedindo ajuda. Ela estava passando mal e precisava ir para a emergência.
Sem pensar duas vezes, disse sim.
Fui cuidar dos filhos dela.
Ajudei nas tarefas da escola, desci para brincarem, organizei as coisas, cuidei deles como faço com tantas crianças que passam pela minha vida. Depois disso, consegui ir à igreja e ainda jantar com meu filho mais novo.
Naquele momento, parecia apenas mais um dia.
Mas não era.
Na segunda-feira, encontrei essa mãe. Ela disse que estava um pouco melhor.
No entanto, depois disso, tudo piorou.
Ela foi internada… e faleceu.
Até hoje, escrever essa frase dói.
Ela era uma mãe amorosa, gentil, presente e muito querida. Uma família muito especial para mim. Crianças pequenas. Uma perda difícil de aceitar.
E aquilo me abalou profundamente.
Como profissional.
Como mulher.
Como mãe.
Como ser humano.
Quando cuidar vai além do trabalho
Quando trabalhamos cuidando de famílias, não cuidamos apenas de crianças.
Nós criamos vínculos.
Participamos de rotinas.
Conhecemos medos.
Acompanhamos fases.
Celebramos conquistas.
Entramos em casas e, muitas vezes, somos recebidas em momentos íntimos da vida de alguém.
Existe um pedaço do nosso coração que fica em cada família.
Depois daquela perda, eu precisei parar.
Talvez eu nem tenha percebido naquele momento, mas o blog também silenciou junto comigo.
A vida seguiu.
Muito trabalho.
Muitas crianças.
Muitas horas fora de casa.
Muito cansaço.
E pouco espaço para organizar sentimentos tão profundos.
Até esta semana.
Viajei.
Descansei.
Respirei um pouco.
E então uma mãe entrou em contato pedindo ajuda para este final de semana. Aceitei trabalhar na sexta-feira. Depois, ela perguntou se eu poderia ficar também no sábado e dormir com as meninas.
Mais uma vez, eu disse sim.
Nós oferecemos presença
Na sexta-feira, levei panos de prato para elas pintarem para a mãe. Fizemos mandalas, ímãs de geladeira e depois tivemos uma ideia especial: pintar as mãos para criar uma árvore.
Falei para elas sobre as cerejeiras do Japão.
Os olhos delas brilharam.
Uma fez um tronco enorme e nós demos risada juntas. Pintamos as mãos, misturamos tintas e criamos memórias.
Foi leve.
Foi divertido.
Foi verdadeiro.
E foi naquele momento que algo aconteceu dentro de mim.
Enquanto aquelas mãozinhas deixavam marcas na tinta, pensei nas marcas invisíveis que nós deixamos na vida das pessoas.
Principalmente na vida das crianças.
Muitas vezes, quando pensamos no trabalho de uma babá, as pessoas enxergam apenas horas contratadas.
Mas existe algo muito maior acontecendo.
Nós oferecemos presença.
Presença ativa.
Presença afetiva.
Presença verdadeira.
Nós ouvimos histórias.
Enxugamos lágrimas.
Inventamos brincadeiras.
Ajudamos na lição.
Lavamos a louça.
Damos jantar.
Colocamos para dormir.
Cuidamos da casa como se fosse nossa.
E, acima de tudo, cuidamos do bem mais precioso de uma família.
Nem sempre esse esforço é reconhecido.
Ainda assim, Deus vê.
E as crianças também sentem.
Talvez elas não lembrem de todos os brinquedos.
Talvez esqueçam algumas brincadeiras.
Mas dificilmente esquecerão como se sentiram ao lado de alguém.
A infância precisa de presença
É isso que eu tento deixar em cada casa onde entro.
Levo brinquedos.
Levo materiais para pintura.
Levo ideias.
Levo criatividade.
Mas, sobretudo, levo a mim mesma.
Levo tempo.
Levo atenção.
Levo acolhimento.
Hoje meus filhos estão crescidos.
Os dois já são homens.
Recentemente, o mais novo brincou dizendo:
“Mãe, você cuida mais dos filhos dos outros.”
E isso mexeu comigo.
Porque não é verdade.
Mas também entendi o que ele quis dizer.
Existe muito de mim espalhado por essas crianças que passaram pela minha vida.
E talvez exista uma razão muito bonita nisso tudo.
Talvez eu esteja oferecendo para essas crianças exatamente aquilo que eu gostaria que alguém tivesse oferecido aos meus filhos: tempo, atenção, afeto, presença e memórias felizes.
Porque a infância passa rápido.
Rápido demais.
E nunca sabemos quando será nosso último abraço, nossa última conversa ou nosso último Dia das Mães.
A perda daquela mãe me ensinou isso da forma mais dolorosa possível.
A arte também é cuidado
Por isso, hoje eu valorizo ainda mais os pequenos momentos.
As pinturas feitas na mesa.
As risadas durante o jantar.
As histórias inventadas antes de dormir.
As mãos sujas de tinta.
Os abraços inesperados.
As conversas simples.
É nessas pequenas coisas que a vida verdadeiramente acontece.
As mãos pintadas daquela árvore representam muito mais do que uma atividade infantil.
Elas representam marcas.
As digitais que deixamos no mundo.
As memórias que construímos sem perceber.
Os afetos que permanecem.
A arte salva.
A arte acolhe.
A arte aproxima.
A arte colore a vida.
A arte cria lembranças que o tempo não apaga.
E talvez seja exatamente isso que eu esteja tentando fazer todos os dias sem perceber: colorir um pouco a infância das crianças que passam pelo meu caminho.
Um recomeço cheio de significado
Hoje, neste recomeço do Babá Conectada, eu não volto apenas para falar sobre rotina, trabalho ou cuidados infantis.
Eu volto para falar sobre humanidade.
Sobre presença.
Sobre amor.
Sobre infância.
Sobre memória.
Sobre cuidado real.
E talvez este texto não seja apenas um retorno.
Talvez seja também uma homenagem.
Àquela mãe.
Às famílias que confiam em mim.
Às crianças que deixaram marcas em meu coração.
E aos meus filhos, que continuam sendo minha maior inspiração para fazer mais e melhor todos os dias.
Se existe algo que aprendi nesse último ano é isto:
No fim da vida, o que permanece não é a pressa.
Não é o dinheiro.
Não são as tarefas.
O que permanece são as marcas de amor que deixamos nas pessoas.
Hoje eu volto para o Babá Conectada com o coração diferente.
Mais sensível.
Mais consciente.
Mais humana.
Volto entendendo que cuidar de crianças é também deixar marcas invisíveis no coração delas.
E espero que, quando essas crianças crescerem, talvez não se lembrem de tudo o que fizemos…
Mas se lembrem de como se sentiram.
Amadas.
Ouvidas.
Importantes.
Porque, no fim, são essas marcas que permanecem.
E talvez sejam elas que fazem a vida valer a pena.
❤️

